Lembranças do que virá

Nas descrições detalhadas e cruas de Sinistros com Fogo, David Means focaliza as fatalidades que perduram nos pequenos gestos

A fatalidade, operada pelo acaso ou pela misteriosa mão de Deus, tem um lugar consagrado na história da literatura. Imitando a vida em cada época, ela está lá para expor as perplexidades da humanidade, desencadear ações épicas, escancarar a dor romântica, alimentar os dramas sociais ou mesmo os dramalhões sentimentais. Há ainda outras vertentes, menos catalogáveis. Nos contos de Sinistros com Fogo, o escritor americano David Means focaliza as tragédias imprevisíveis, anunciadas em pequenos gestos que perduram além das estatísticas e do noticiário policial, corriqueiro, das cidades.

Não é um expediente novo, a bem da verdade. Mas, como sempre ocorre na ficção, seu êxito e originalidade dependem da maneira como o escritor reaproxima o leitor dessa realidade conhecida e ao mesmo tempo distante numa sociedade em que pouco se divisa o indivíduo. Embora reúna narrativas publicadas esparsamente em revistas como Harper’sThe New Yorker e The Paris Review, o livro, lançado em 2000, possui uma unidade que lhe confere a força de uma obra exemplar sobre esse imponderável ameaçador, que, além de tudo, preferimos esquecer.

O REGISTRO INDIVIDUAL

Há crime e violência gratuita, acidentes de carro, afogamentos, soterramentos, doenças fatais, suicídios e, como se pode supor pelo título, incêndios — um pouco de tudo o que as apólices de seguro abarcam em sua terminologia. Os personagens e cenários, comuns, surgem em descrições detalhadas em longos períodos, mas cruas: no mais das vezes, a subjetividade não se encontra em grandes questionamentos existenciais, mas sim na ambientação das histórias, construídas por pedaços de dor, física, e de perda.

Na humanidade desvendada por Means, além do fato objetivo estão os cheiros, os guinchos vindos das ferrovias, as saliências de xisto e os movimentos de um onipresente rio Hudson. E como se fora um exercício proustiano de mão dupla, cada registro sensorial do mundo evoca lembranças que remetem os personagens a outros elementos e imagens, particulares: saias penduradas no armário, botes virados, um bebê espadanando água na banheira num verão perfumado de lavanda.

É exatamente aí, nesse diálogo de percepções e de memórias, estabelecido numa hábil combinação entre o descritivo, o narrativo e a reflexão, que a fatalidade individual se desprende da irrealidade da tragédia cotidiana. Em O Caçador de Gestos, uma espécie de conto-confissão, Means expõe essa busca do momento singular de uma vida ou de morte, que só pode ser apreendido pelo registro subjetivo, humano, nunca pela impessoalidade do eletrônico. Porque só dessa maneira se poderá extrair das cinzas a memória do som do fogo crepitando, o majestoso e terrível espetáculo das chamas.

BRAVO!, julho de 2006
© Almir de Freitas