Inéditos e imaturos – parte 3

pessoa

(… a sequência de ontem, agora acaba)

Com Fernando Pessoa, o caso é outro. Embora ele não abrisse mão de um ideário (como o sebastianismo do ortônimo Mensagem) ou de dogmas estéticos (como nas poesias do heterônimo futurista Álvaro de Campos), suas poesias estão, desde a origem, desprovidas de sentido histórico. Isto é: jamais foram pensadas como parte de uma militância, de uma revolução estética: eles eram, os próprios textos, a revolução estética possível.

Os textos escritos no fim da vida, a obra “madura”, revela, além disso, um Pessoa cada vez mais fechado sobre si mesmo. De certa maneira, é o oposto mesmo do pacifismo “mundo-mundial” do jovem Mário de Andrade – o que, para nós, também faz sentido, nas concepções gerais que temos sobre o entusiasmo da juventude as duras questões da velhice.

Um exemplo, dos inéditos – um dos que não têm indicação de data precisa:

“Em círculos concêntricos vivemos,
Nenhum cruzado céu nos volve a vida
Que sonhamos, que somos ou que temos.
Do antro irreal em círculo partida
Em raios desiguais do nada extremos.

O olhar não vê. O ouvido, que se cola
Às portas para nada, se engalana
De um falso som que só de si dimana.
Nada há que do nada nos consola.

Fingimos a alma, solidão perdida.”

Nesta edição agora lançada, há ainda poemas hoje já bastante famosos, como o que vem a seguir. Foi escrito em 19 de novembro de 1935, onze dias antes de Pessoa morrer. E esquecido ficou, não-catalogado, durante 30 anos, até ser publicado em 1965.

“Há doenças piores que as doenças, 
Há dores que não doem, nem na alma 
Mas que são dolorosas mais que as outras. 
Há angústias sonhadas mais reais 
Que as que a vida nos traz, há sensações 
Sentidas só com imaginá-las 
Que são mais nossas do que a própria vida. 
Há tanta cousa que, sem existir, 
Existe, existe demoradamente, 
E demoradamente é nossa e nós… 
Por sobre o verdor turvo do amplo rio 
Os circunflexos brancos das gaivotas… 
Por sobre a alma o adejar inútil 
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.
Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.”

E por aqui encerramos. Esta que foi, a bem da verdade, uma comparação esdrúxula. Mas eu avisei.

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