Filosofia de saloon

saloon

O título está longe de ser bom, e a ideia também não tem muita coisa de original: Cinefilô – As Mais Belas Questões da Filosofia do Cinema, de Ollivier Pourriol, que a editora Jorge Zahar coloca na livrarias a partir da semana que vem. No livro, o que o francês fez foi reunir as aulas em que ele usa filmes para ilustrar sisudos conceitos filosóficos, algo bastante conhecido até por professores do ensino básico no Brasil.

Duas coisas, contudo, chamam a atenção. A primeira é a opção de trabalhar basicamente com a obra de apenas dois filósofos, René Descartes e Spinoza, o que ajuda a evitar a barafunda de ideias superficiais coladas a cenas e falas. E isso por mais que o autor, com certa insistência irritante, faça força para parecer pop e “legal”, como um professor de cursinho. Suas tentativas de parecer irônico, no estilo de Umberto Eco, são de corar.

O outro aspecto notável são os filmes que ele utiliza. Com uma ou outra exceção, os exemplos são do cinemão americano. Alguns são bons, mas nenhum tem, definitivamente, aquela profundidade retórica do “cinema de arte” cultuado pelos scholars franceses de calça xadrez e cachimbo na boca. Não fica claro se Pourriol é daqueles que acham que a sabedoria emana dos simples e pobres de espírito ou se tudo deriva daquela mesma vontade de ser pop e “legal”. O fato é que toda a sua análise se sustenta em filmes como Matrix, Clube da Luta, X-Men, Forrest Gump, Beleza Americana, O Sexto Sentido, Highlander e, naturalmente, Blade Runner.

É um livro longo, com muita redundância. Mas – surpresa – até que Pourriol, em algumas iluminações, consegue voltar ao começo de tudo usar exemplos do cinema para elucidar de verdade ideias filosóficas. Evocando Descartes, escreve a respeito da cena de Os Imperdoáveis em que o personagem vivido por Clint Eastwood elimina a bala vários inimigos sem sofrer nenhum arranhão:

“(…) fundamentado não numa agilidade superior ou numa velocidade de percepção e de tiro sobre-humana, mas numa análise precisa dos sinais emitidos por seus adversários – o mais agressivo atirará antes do mais tímido, o mais agitado tem mais chance de errar o alvo etc – e da ordem dos alvos a serem eliminados – do mais perigoso ao menos perigoso. William Muny combina o Tratado das Paixões com O Discurso do Método. Seu conhecimento das paixões humanas – medo, raiva, ódio – permite-lhe definir prioridades e uma cadeia de ações em que ele não enfrenta, no final, senão um adversário de cada vez.”

That’s it: a razão, com método, vence as paixões — e é assim, segundo Descartes, que deve ser.

Depois volto para falar de Spinoza.

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