Sai-fai

Sao-fai

Uma das coisas que me soam mais estranhas é a literatura de ficção científica feita por brasileiros. Não vai aqui (a princípio) nenhum juízo crítico, nem – longe de mim – a ideia de que temos de falar de boiadas, pobreza e carnaval nos nossos cordéis. Estou me referindo mais a uma questão de percepção subjetiva, gramática – coisa que muita gente vai chamar de preconceito. Na verdade, não é tão pré assim, porque boa parte da feita em inglês já me causa desconforto. Como se a fabulação, tomada como absoluta, permitisse não apenas o delírio, mas a abolição da verossimilhança. Nesse vale-tudo, deixa de ser literatura para se transformar em maratona imaginativa, o que é coisa bastante diferente.

Mas tem uma questão de qualidade também. Se for parâmetro, a coletânea, organizada por Nelson de Oliveira (Record, 416 págs., R$ 49,90), me leva do estranhamento subjetivo à certeza, objetiva, de que reina muito amadorismo na área. Como se a inadequação ao meio somada à sensação de liberdade narrativa permitissem vícios literários e proselitismos mais raros em outros temas. Além disso, a imaginação, maior ativo do gênero, frequentemente peca no quesito originalidade. Condenações à “espécie humana” pontuam narrativas em que a Terra foi extinta ou está em vias de, seja pelo já antigo Armagedon atômico, seja pela catástrofe ambiental, esta mais em moda.

A seguir, alguns trechos dos contos do livro que dão uma ideia dessa combinação infernal. Ideia apenas, porque, confesso, não li o livro propriamente.

COR LOCAL E UNS VERBOS RUINS

“Eu e Jude, depois de quase um ano caminhando pelo que um dia se chamou Brasil, chegamos à grande depressão do Amazonas. Esse filete de água, que em alguns lugares logro vencer com um passo mais largo, foi um dia o grande rio Amazonas. (…) Ontem comentei com Jude que a população de replicantes vivendo em Manaus já ultrapassa trinta mil, segundo os cálculos de uma pretensa Sociedade de Administração e Recepção de Replicantes Imigrantes.” (Requiescat in Pace, Hilton James Kutscka)

SEO OROZIMBO E UM CAPITÃO-DO MATO

“O major Orozimbo Neves fazia parte de uma tal Força Espacial Panamericana.” (As Infalíveis H, Paulo Sandrini).

“Jonas Peregrino, um capitão-do-espaço-profundo a soldo da Esquadra Latinoamericana da Esfera, comandara a única vitória humana em carne e osso infligida contra os alienígenas.” (Descida no Maelström, Roberto de Sousa Causo)

PROSELITISMO TERCEIRO-MUNDISTA NO FUTURO

“O neologismo OK, vigente no século em que a antiga nação bárbara do Norte tinha dominado o mundo, havia sido abolido.” (Depois da Grande Catástrofe, Deonísio da Silva)

“Seu corpo nunca saiu de São Paulo. E aqui é a Fundação Reviver, que ficou com o acervo da Sobreviver’. César apontou para um logo da fundação bem à sua frente onde de lia Reliver. ‘Não é isso o que estou lendo ali.’ ‘Isso está escrito na língua falamos hoje, portuglês.’” (A Máquina do Saudosismo, Ataíde Tartari)

DELÍRIOS NARRATIVOS E VEROSSIMILHANÇA

“O homem terrestre, reduzido a nanoescala, foi injetado em meu corpo para que, hospedado em um organismo semelhante, se reproduzisse. Eu seria submetido a uma cirurgia para retirada do tecido terrestre, que daí por diante se alimentaria em laboratório até estar à altura de ser injetado em um polvo-berçário.” (Aníbal, Andréa Del Fuego)

“Atrás dos policiais vêm os agentes com a bazuca gravitacional novinha em folha, projetada especialmente para essa ocasião. Efraim sabe que se dispararem a rede de partículas negativas sobre ele, adeus liberdade de movimentos, ele estará petrificado indefinidamente, pronto para ser levado, dissecado, analisado.” (Nostalgia, Luiz Brás)

“Isso aconteceu depois de um drástico agravamento do problema, quando em decorrência da pressão social para o controle populacional, a relação hetero foi proibida, em meados do século XXII. Os relacionamentos permitidos passaram a ser tão somente o homo e o virtual. Essa tentativa de controle, no entanto, depois de algumas tragédias — que não vem ao caso rememorar aqui —, acabou substituída pela liberdade irrestrita” (O Vírus Humano 2, Maria José Silveira)

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