Deixa Ela Entrar

No Dia das Crianças, um filme para lá de heterodoxo é Deixa Ela Entrar, do sueco Thomas Alfredson. É boa a história da vampira-mirim Eli (Lina  Leanderson, excepcional), que chega a um feio, gelado e escuro subúrbio de Estocolmo para tirar o menino Oskar de sua solidão. Como já se observou, o filme explora de maneira  (já a partir do título) obsessiva a ideia de incomunicabilidade, ou, ainda, a da interdição: são janelas, vidros, portas, paredes etc. separando as personagens; por contraste, as passagens – túneis, pontes, soleiras e batentes — estão longe de ser os lugares mais tranquilos e seguros. É essa “concretude”, captada em enquadramentos caprichados, que salva Deixa Ela Entrar do alegorismo enfadonho: embora as imagens signifiquem algo, nada é alardeado. Elas bastam por si.

Ainda assim, o roteiro de John Ajvide Lindqvist brinca com o perigo. Também autor do livro que deu origem ao filme, Lindqvist parece ter batido o pé para preservar um pouco tudo da narrativa original. Há, claramente, elementos descosturados na trama, que vão de cambulhada: em meio aos dramas pré-adolescentes de Oskar, há breves referências à URSS e aos comunistas; um professor espanhol de educação física que toma vinho de seu país e tropeça no idioma para mostrar sua origem; a aparição relâmpago de um homem “suspeito” na casa do pai separado de Oskar; e, finalmente, o homem velho com jeitão pedófilo que passa por pai de Eli e que a serve, mas cuja identidade real nunca ficamos sabendo.

A sorte de Deixa Ela Entrar é que tudo isso acaba mergulhando também numa zona de interdição, em que as coisas parecem que podem ser apenas sugeridas, jamais comunicadas. O que, como se vê, é bastante útil ao argumento — embora seja, sou capaz de apostar, uma falha técnica. Em compensação, é preciso louvar o equilíbrio entre delicadeza, violência e humor de Alfredson-Lindqvist. Essas três virtudes podem ser vistas juntas numa das melhores cenas do filme — a da piscina, perto do final, quando, depois de algo que não vou contar aqui, a câmera fecha nos belíssimos olhos de Eli.

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