Comida, fogueira e sexo

Mais um bom livro da série “nós, nossos hábitos e os bichos” (aqui e aqui) é Pegando Fogo – Por que Cozinhar nos Tornou Humanos, de Richard Wranghan (Zahar, 232 págs., R$ 34). Como todo bom evolucionista, o autor tem o seu saco de pancadas: os crudívoros, que defendem dietas compostas exclusivamente por alimentos crus, tidos como “naturais” e, portanto, “mais saudáveis”. Para Wranghan, é simples: não somos como os outros animais. Cozinhamos porque ganhamos, no passado, benefícios evolutivos – isto é, a cozinha nos tornou mais aptos à sobrevivência. Logo não pode existir coisa (digamos assim) “mais saudável”, apesar de não ser “natural”. As razões são várias, mas se assentam na premissa geral de que o ganho energético é maior nas dietas com alimentos cozidos.

Isso, contudo, é apenas parte da obra. Antropólogo, Wranghan está interessado nas relações sociais que se formam a partir daí – na ideia de que cozinhar é o ponto de partida da vida em comunidade, na divisão sexual do trabalho e nos aspectos simbólicos que uma refeição bem preparada pode ter. No que se refere à relação entre homem e mulher, Wranghan invoca algumas ideias e dados:

  1. O cozimento criou um sistema simples de casamento: um marido assegurava que os alimentos coletados por uma mulher não fossem tomados por outros homens. Em troca, ele ganhava uma refeição vespertina, preparada por ela, quando andava ocupado por aí, caçando ou fazendo outra coisa.
  2. Em culturas como a dos inuítes, os solteiros e viúvos podiam ser impelidos para territórios vizinhos a fim de raptar uma mulher, mesmo que isso significasse matar o marido dela. Entre os tiwis, os velhos tomavam as esposas jovens, de modo que a maioria dos homens jovens casava-se com viúvas bem mais velhas. Mesmo que tivessem passado da idade de procriar, ainda cozinhavam.
  3. Em algumas sociedades, como a dos aborígenes do deserto ocidental australiano, um homem – solteiro ou casado – que se aproxima da fogueira da mulher de outro homem em busca de comida está transgredindo as convenções. Por seu turno, se ela oferece comida está claramente flertando ou – se solteira – propondo um noivado.
  4. Segundo uma pesquisa feita em 1973, compreendendo 50 atividades produtivas em 185 culturas, as mulheres eram predominante ou exclusivamente responsáveis por cozinhar em 181 sociedades – 97,8% do total. Só eram mais presentes nas tarefas de preparar hortaliças ou apanhar água.

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