Do que você precisa?

As Metáforas Farmacoquímicas com que Vivemos, de Orlando Coser (Garamond, 114 págs, R$ 33) é um achado para hipocondríacos – um pouco também, vá lá, para quem se interessa pelo estudo da linguagem. Misturando um pouco de história da farmacologia, semiótica e publicidade, o autor defende a ideia de que somos reféns de imagens meramente aproximativas para compreender o efeito dos remédios dos tomamos. E como, por conseqüência, as indústrias farmacêuticas amplificam o poder dessas metáforas para nos convencer a comprar felizes os seus remédios.

Não são medicamentos quaisquer. A coisa se aplica principalmente aos psicofármacos, aqueles que já origem (“um complemento da alma capaz de suprir exatamente e de forma adequada ao que falta”) abrem um universo de possibilidade a essa “ação metaforizante”. Foi assim já nos anos 50 com a clorpromazina (Thorazine), o antipsicótico que provocava uma “quietude eufórica” por tranqüilizar sem causar sedação; com o meprobamate (Miltown), ansiolítico chamado nos anos 60 de “cura milagrosa para a ansiedade”; e, claro, a fluoxetina (Prozac), que nos anos 90 ganhou o epíteto de “pílula da felicidade” – uma atribuição que já tinha feita nos anos 60 a um remédio para tuberculose, a iproniazida (Marsilid).

Mas os meus favoritos são os textos usados na publicidade. Alguns exemplos:

Quando o tratamento da depressão é seletivo, quem colhe os frutos é o seu paciente. (Se não fosse seletivo, quem colheria? Lamento, mas a pergunta é justa)

Seus pacientes vão mudar. Fácil, rápido e discreto (Sobre um antidepressivo supostamente mais fácil de esconder, por não necessitar de água para ser ingerido)

Aquelas decepcionantes lacunas na memória… O médico sabe… ele tem 50 anos (Muitos têm, mas é claro que outros, não. Mas você entendeu, certo?)

Sentindo-se inchada? Acha que é TPM? Pense de novo, pode ser TDPM. (Não sei se é boa hora de mandar a pessoa disfórica pensar de novo. Ainda mais numa outra sigla.)

Não basta fazer amor, é preciso que seja o mais natural possível. (Tem muita gente – garanto – que discorda)

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