A distância da lua

Amanhã acontece o tal perigeu lunar — é o dia em que a Lua estará numa órbita mais próxima da Terra em quase 20 anos. A 221.557 milhas de distância (?), a supermoon estará, segundo leio, 14% maior e 30% mais luminosa. Não chega a ficar tão perto quanto à narrada por Qfwfq em A Distância da Lua, conto de Italo Calvino em As Cosmicômicas, livro já citado no blog algumas vezes (em dez vídeos incríveis, aqui e aqui) e de onde tirei o trecho abaixo. Mas pode ser um belo espetáculo para o fim de semana. Se não, vale pela recordação do texto.

A ilustração acima é de Sara Argue.

Houve um tempo, segundo sir George H. Darwin, em que a Lua esteve muito próxima da Terra. Foram as marés que pouco a pouco a impeliram para longe: as marés que a própria Lua provoca nas águas terrestres e com as quais a Terra vai perdendo lentamente energia.

——

Bem sei disso!, exclamou o velho Qfwfq, vocês não podem se lembrar, mas eu posso. A Lua estava sempre sobre nós, desmesurada: no plenilúnio — as noites claras como o dia, mas com uma luz cor de manteiga —, parecia a ponto de explodir; quando chegava a lua nova, rolava pelo céu como um negro guarda-chuva levado pelo vento; e, no crescente, avançava com o chifre de tal forma baixo que parecia prestes a espetá-lo na crista de um promontório e ali ficar ancorada. (…) Havia noites de plenilúnio em que estava tão baixa e as marés tão altas, que para a Lua banhar-se no mar faltava um fio; digamos poucos metros. Se nunca tentamos subir nela? Claro que sim. Bastava ir até embaixo dela, de barco, apoiar-lhe uma escada portátil e subir.

(…) A água naquelas noites era claríssima, prateada que parecia de mercúrio, e dentro dela os peixes, roxos, não podendo resistir à atração da Lua, vinham todos à tona, bem como os polvos e medusas da cor do açafrão. Havia sempre um voo de animais minúsculos — pequenos caranguejos, lulas e até mesmo algas leves e diáfanas, eflorescências de corais — que se desprendiam do mar e acabavam na Lua, e lá ficavam dependurados naquele teto calcinado, ou então ficavam ali no ar, como um enxame fosforecente que tínhamos de espantar agitando grandes folhas de bananeira. (…)

8 comentários

  1. Vale sempre a pena reler, nem que seja trechos, do Calvino. E vale sempre a pena olhar pro céu, pra lua, independente do tamanho. Obrigada por compartilhar essa notícia de forma tão poética. E por relembrar sempre esse escritor fantástico que é o Calvino; “As Cosmicômicas” foi uma das minhas primeiras experiências com ele. =)

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