Livros que matam – 2

Outro livro assassino é O Dicionário Kazar, do sérvio Milorad Pavitch (Marco Zero, 304 págs., fora de catálogo), romance-enciclopédia em que o a ficção é tomada como verdade, e vice-versa, de maneira que nunca sabemos onde estamos pisando – coisa bem borgiana. No livro se narra (supostamente) tudo o que se compilou no século XVII sobre o extinto do povo khazar, “tribo poderosa e independente (…) vindo do Oriente em uma época incerta, impulsionado por algum silêncio ardente. Habitaram, do século VI ao século X, um território entre o mar Cáspio e o mar Negro”, onde se converteram ao judaísmo. Tem bastante verdade nessa história, mas é bom não se fiar demais na lábia de Pavitch. Para abreviar, ele conta que um dos 500 exemplares da primeira edição de O Dicionário Kazar, publicada em 1691 por um editor polonês, foi impresso com tinta venenosa, protegido por uma fechadura de ouro.

“Aquele que abria o livro paralisava-se rapidamente, aguilhoado pelo seu próprio coração como se fosse por um alfinete. O leitor morria, efetivamente, na nona página, ao ler as seguintes palavras: Verbum caro factum est (O verbo se fez carne).

Transmitido através de gerações em uma família prussiana, o volume foi matando sem ser percebido. Até que um dia o gado começou a morrer, veio a seca, e alguém disse que o livro, “como qualquer donzela” (o máximo, isso), podia se tornar-se Tmorina, uma vampira. Colocou-se, então, uma cruz em sua fechadura, mas o resultado foi pior.

(…) as pessoas da casa começaram a sufocar enquanto dormiam e a morrer. Foram então procurar um padre: ele retirou a cruz do livro e a hecatombe terminou. Ele lhes disse: ‘Cuidai no futuro de não enfiar uma cruz no livro, quando o espírito estiver fora, pois o medo mortal que ele tem da cruz impede-o de retornar. E ele causa devastação e mortes”.

Mais, só lendo o livro – Pavitch diz de cara que esta “segunda edição” é inofensiva. Verdade?

Quem me deu a dica para este post foi Maria Esther Maciel, ela também autora de um ótimo romance-dicionário, O Livro dos Nomes (Companhia da Letras, 176 págs., R$ 37). A imagem acima é de uma versão em HQ do romance.

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