Como um tedioso argumento

Pouca gente lê poesia, muito menos na tela de um computador. Se o poema for longo, nem se fala. Se estiver em áudio, declamado pelo próprio autor, mas numa gravação meio sofrível, a ajuda é pouca. Se vier em vídeo, mas se esse vídeo não acrescentar nada além de uma versão meio construtivista das palavras que o compõem, então pode esquecer qualquer audiência. Tudo isso é certo, mas ainda assim vale muito a pena conferir (mesmo que de passagem), o vídeo acima, montado por Michael Ogawa a partir da leitura de T. S. Eliot do seu belíssimo A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock. E se a pressa for demais, vale ler os versos iniciais, abaixo, na tradução de Ivan Junqueira. Quem sabe a pessoa apressada não se anima a achar o poema inteiro, no velho livro de papel, para – numa hora menos apertada que essa – descobrir ao longo da visita a resposta para a angustiante questão.

Sigamos então, tu e eu,
Enquanto o poente no céu se estende
Como um paciente anestesiado sobre a mesa;
Sigamos por certas ruas quase ermas,
Através de sussurrantes refúgios
De noites indormidas em hotéis baratos,
Ao lado de botequins onde a serragem
Às conchas das ostras se entrelaça;
Ruas que se alongam como um tedioso argumento
Cujo insidioso intento
É atrair-te a uma angustiante questão…
Oh, não perguntes: “Qual?”
Sigamos a cumprir nossa visita.

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