O mundo de Roquentin

Em clima noir, a designer americana Amanda Donahue fez esse esboço de storyboard para um trecho de A Náusea, o romance com que Jean-Paul Sartre estreou temporão na literatura, em 1938. Tinha 33 anos. Não é lá um grande livro, mas eu quando jovem (como muitos outros) achava o máximo o mundo descrito pelo melancólico Antoine Roquentin. Livros, às vezes, são assim: ainda que desprovidos de esmero técnico, podem ser imbatíveis no impacto que exercem, pelo menos por algum tempo.

Abaixo, seguem trechos da passagem que Amanda utilizou para as ilustrações. Avaliem. A tradução é de Rita Braga, feita para a edição da Nova Fronteira (226 págs., R$ 21,90).

 “O café Mably tem doze lâmpadas elétricas; mas só duas estavam acesas, uma sobre a caixa, outra sobre a luminária do teto. O único garçom me empurrou à força para um canto escuro. (…) Estava de casaco, sem colete nem colarinho postiço, com uma camisa branca com listras roxas. Bocejava e me olhava com olhar aborrecido, passando os dedos pelo cabelo. (…) Eu estava mergulhado na obscuridade, uma desagradável obscuridade glacial. O radiador certamente não estava aceso. (…) Não estava só. Em frente a mim estava sentada uma mulher de tez cor de cera que não parava de agitar as mãos, ora para alisar sua blusa, ora para compor seu chapéu preto. Estava acompanhada de um louro alto que comia um brioche sem dizer palavra. O silêncio me pareceu pesado. Sentia vontade de acender meu cachimbo, mas me seria desagradável chamar a atenção deles acendendo um fósforo. (…) Eu baixara os olhos para não parecer que estava observando-os. Após alguns instantes ouvi rangidos e vi surgir a fímbria de uma saia e duas botinhas maculadas de lama seca. Seguiram-se as do homem, envernizadas e bicudas. Avançaram sobre mim, se imobilizaram e deram meia volta: ele estava colocando seu casaco. Nesse momento, uma mão começou a descer ao longo da saia, uma mão na ponta de um braço inteiriçado; hesitou um pouco, roçava a saia com as unhas. (…) A mão se abriu, veio tocar uma grande estrela de lama na botinha de lama, depois desapareceu. (…) Tinha pegado uma valise que estava perto do cabide. Saíram, vi-os penetrar no nevoeiro.”

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