Meu tio na contramão – 2

Fiquei devendo, semanas atrás, os trechos de Meu Tio, de Jean-Claude Carrière, baseado no filme de Jacques Tati. Dizia então (aqui) do desafio de transformá-lo em obra literária – no caso, tão ou mais arriscado que a habitual adaptação de um livro para o cinema. Os trechos abaixo correspondem a imagens dos momentos iniciais do filme (clique aqui para rever):

“Tive o azar de ser uma criança moderna, de estar à frente do meu tempo. Cresci num caixote sem graça e cinzento, parecido com as casas hoje em dia. Passeei devagar, com prudência, pelas trilhas de um jardim fechado. (…) Bem no centro, a bocona aberta, como se quisesse recolher uma chuva há tempos desejada, um peixe de aço se retorcia num tanque de pedra.”

“Toda manhã, meu pai me deixava na escola. Enquanto eu fechava a minha pasta, meu pai, na escadinha, acendia o primeiro cigarro – eram contados: doze por dia –, e minha mãe, na sua minifaxina matinal, espanava freneticamente tudo o que estivesse ao seu alcance. Desse modo, ela perseguia, todo dia, a poeira, a cruel poeira que tinha se depositado ali durante a noite.”

“Depois que a gente ganhava velocidade, às vezes eu me virava para trás. Na grade, minha mãe agitava, como um lenço de adeus, o trapo coberto de poeira.  Meu pai olhava para ela pelo retrovisor, e pelo rosto eu adivinhava que ele ficava contente com o ritual, aquela poeira esvoaçante lhe desejando boa viagem. (…)  Para mim essa ficou como a única imagem da minha mãe: uma silhueta coberta de náilon claro, uma estátua da dona de casa ideal.”

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