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(... (http://www.almirdefreitas.com/almir/Blog/Entradas/2009/4/21_In%C3%A9ditos_e_imaturos_-_parte_2.html))
Com Fernando Pessoa, o caso é outro. Embora ele não abrisse mão de um ideário (como o sebastianismo do ortônimo Mensagem) ou de dogmas estéticos (como nas poesias do heterônimo futurista Álvaro de Campos), suas poesias estão, desde a origem, desprovidas de sentido histórico. Isto é: jamais foram pensadas como parte de uma militância, de uma revolução estética: eles eram, os próprios textos, a revolução estética possível.
Os textos escritos no fim da vida, a obra “madura”, revela, além disso, um Pessoa cada vez mais fechado sobre si mesmo. De certa maneira, é o oposto mesmo do pacifismo “mundo-mundial” do jovem Mário de Andrade – o que, para nós, também faz sentido, nas concepções gerais que temos sobre o entusiasmo da juventude as duras questões da velhice.
Um exemplo, dos inéditos - um dos que não têm indicação de data precisa:
*“Em círculos concêntricos vivemos, Nenhum cruzado céu nos volve a vida Que sonhamos, que somos ou que temos. Do antro irreal em círculo partida Em raios desiguais do nada extremos.
O olhar não vê. O ouvido, que se cola Às portas para nada, se engalana De um falso som que só de si dimana. Nada há que do nada nos consola.
Fingimos a alma, solidão perdida.”*
Nesta edição agora lançada, há ainda poemas hoje já bastante famosos, como o que vem a seguir. Foi escrito em 19 de novembro de 1935, onze dias antes de Pessoa morrer. E esquecido ficou, não-catalogado, durante 30 anos, até ser publicado em 1965.
*“Há doenças piores que as doenças, Há dores que não doem, nem na alma Mas que são dolorosas mais que as outras. Há angústias sonhadas mais reais Que as que a vida nos traz, há sensações Sentidas só com imaginá-las Que são mais nossas do que a própria vida. Há tanta cousa que, sem existir, Existe, existe demoradamente, E demoradamente é nossa e nós... Por sobre o verdor turvo do amplo rio Os circunflexos brancos das gaivotas... Por sobre a alma o adejar inútil Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo. Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.”*
E por aqui encerramos. Esta que foi, a bem da verdade, uma comparação esdrúxula. Mas eu avisei.